Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006
ÁGUA ÁGUA, ÁGUA...

MIL MILHÕES DE PESSOAS NÃO TÊM ÁGUA POTÀVEL

 

São as populações mais pobres do mundo quem mais paga pela água.

 

No início do século XXI, a água suja é a segunda maior causa de mortes de crianças em todo o mundo. Quase dois milhões de crianças morrem anualmente por falta de um copo de água potável e de instalações sanitárias. Mais de mil milhões de pessoas não dispõem de acesso a água potável, e cerca de 2,6 mil milhões não têm acesso a um saneamento adequado.

As raízes da crise em termos de água prendem-se, essencialmente, com a pobreza, a desigualdade e relações desiguais de poder, bem como com políticas de gestão da água deficientes que aumentam a escassez.

Existem dois aspectos específicos na crise global da água. O primeiro consiste na água para a vida: o fornecimento de água potável, a eliminação de águas residuais e a oferta de saneamento, três aspectos que são considerados os alicerces mais básicos do progresso humano. O segundo aspecto é a água enquanto meio de subsistência: a água como recurso produtivo partilhado por países e no interior dos mesmos.

 

A crise dos pobres.

 

Quase duas em cada três pessoas sem acesso à água potável sobrevivem com menos de dois dólares por dia, com uma em cada três a viver com menos de um dólar por dia. Mais de 660 milhões de pessoas sem saneamento vivem com menos de dois dólares por dia e mais de 385 milhões com menos de um dólar por dia.

Esta é das crises que mais reforça as desigualdades sociais, e que exige soluções políticas. O financiamento público é apontado como a solução para ultrapassar a falta de acesso à água e ao saneamento, já que as populações mais pobres não têm capacidade de financiar um acesso melhorado através da despesa privada. Em muitos países, a distribuição do acesso à água e ao saneamento reflecte a distribuição da riqueza: o acesso a água canalizada nos lares é, em média, de 85% para 20% mais ricos, em comparação com 25% para os 20% mais pobres.

Para além disso, as pessoas mais pobres não só têm acesso a menos água, e a menos água potável, como também pagam alguns dos preços mais elevados do mundo. Casos de Jacarta, na Indonésia e em Nairobi, no Quénia.

As pessoas que vivem nos bairros degradados pagam 5 a 10 vezes mais por água e por unidade, do que as que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades – e mais do pagam os consumidores de Londres ou de Nova York.

 

Desigualdade de género.

 

Em muitos países, devido a esta crise, é notório o prejuízo da educação das raparigas. O tempo perdido a ir buscar água é uma das razões para o enorme fosso entre géneros verificado a nível da frequência escolar. Por exemplo, na Tailândia, os níveis de frequência escolar são 12% mais elevados nas raparigas que moram a 15 minutos ou menos das fontes de água, comparativamente com as que moram a uma ou mais das mesmas.

Os índices de frequência escolar dos rapazes apresentam um nível de dependência em relação às fontes de água bem mais reduzido. Para milhões de famílias carenciadas, existe um claro conflito entre o tempo despendido na escola e o tempo gasto a ir buscar água.  

Outro motivo apontado para a desigualdade de género é a falta de condições de saneamento nas escolas. Devido a preocupações com segurança e privacidade, é frequente os pais retirarem as suas filhas de uma escola que não oferece casas de banho adequadas e separadas dos rapazes. Estima-se que metade das raparigas da África Subsariana abandona a escola primária devido à falta de água potável e de instalações sanitárias sem condições.

 

O aquecimento global e a escassez.

 

É necessário gerir a escassez, o risco e a vulnerabilidade da água. Apesar de não ser a escassez o principal motivo da crise da água, ela poderá sê-lo no futuro. O aquecimento global transformará os padrões hidrológicos que determinam a disponibilidade da água. Muitas das zonas do mundo mais sujeitas à pressão sobre os recursos hídricos receberão menos água e os fluxos de água tornar-se-ão menos previsíveis e mais dependentes de acontecimentos adversos.

As previsões dos especialistas falam também na ruptura dos sistemas de produção alimentar, expondo uma proporção suplementar de 75 a 125 milhões de pessoas à ameaça da fome; o acelerado degelo dos glaciares, conduzindo a reduções a médio prazo na disponibilidade de água num vasto grupo de países da Ásia Oriental, da América Latina e da Ásia do Sul; subidas crescentes do nível do mar, resultando em perdas de água doce em sistemas de deltas de rios em países como o Bangladesh, o Egipto e a Tailândia.

 

Os custos do desenvolvimento humano devido à crise da água

 

 - Cerca de 1.8 milhões de mortes de crianças por ano causadas por diarreia (4900 por dia).

 - A perda de 443 milhões de dias escolares por ano devido a doenças relacionadas com a água

 - Perto de metade do total de pessoas dos países em desenvolvimento sofrem, em determinada altura, de um problema de saúde causado pela falta de acesso a água e saneamento.

 - Milhões de mulheres passam várias horas por dia a recolher água.

 - Ciclos de vida de desfavorecimento afectam milhões de pessoas, com doenças e oportunidades de educação perdidas na infância, resultando em pobreza na vida adulta.

 


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publicado por Luis Pereira às 15:01
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