“É curta, e por vezes mal medida, a distância entre a Memória e o Esquecimento. Para uns, memória é somente passado; para outros, espelha-se no presente, pretendendo ser a fundação do Edifício do Futuro; para outros ainda, é pura e simplesmente, esquecimento.
Como Cidadãos, somos os construtores desse edifício, que se faz à custa da imagem ou do texto ou de outra forma de testemunho e que se consolida pela confecção da argamassa do Tempo que vai passando pelas mãos.
É essencial fixar a memória dos dias. Um perfume, um som, uma cor, uma textura, um grito no peito ou um arrepio na espinha. Alcançar a verdade? Reconstituir? Talvez, um dia, seja possível. Por agora, resta-nos preparar esse caminho de uma forma ponderada, plural e sólida, com capacidade para sublinhar valores.
Quantas vezes se nos eriça o pelo dos braços só de olhar para uma imagem?”
Mário João Mesquita.
Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.
É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.
É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel no chão da Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.
É muito mais intolerável o shador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados na Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiénico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem telemóvel
que um moçambicano sem livros para estudar.
É mais triste uma laranjeira seca num colonato hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de uma Barbie a uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais a um menino ugandês
e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do ocidente.
Fernando Correia Pina
. DA MEMÓRIA AO ESQUECIMENT...
. A FUGA
. CONTRA A VIOLÊNCIA SOBRE ...
. ambiente
. diversas
. luta
. paz
. pobreza
. poesia